Adriana Guedes rumo à maratona, em uma jornada digna de uma mulher maravilha

Engenheira química de formação, Adriana Guedes, de 37 anos, convive com uma eterna batalha dentro de si. Às vezes se sente a própria Mulher Maravilha. Mas em alguns momentos acha que não conta de nada. A corrida foi uma forma que ela encontrou de se desafiar e mostrar que dá conta. Mas nunca foi fácil. E para mostrar de vez que quem manda é o seu lado Mulher Maravilha, Adriana decidiu correr uma maratona. A escolhida foi a de São Paulo, no próximo dia 7, para a qual vem se preparando com o treinador Joel Glicério. Confira!

“Morava em Brasília e comecei a correr bem de leve e bem esporadicamente quando vim morar no Rio, em 2012. Não era algo regular. Corria pouco e sempre sozinha. Foi assim em 2012, 2013. Fazia algumas provas de rua de 5K. Mas minha relação com a corrida não chegava nem perto de como é hoje. Havia semana em que eu corria três vezes, aí na outra semana não corria um dia sequer.

Um dia, um amigo me chamou fazer uma trilha na Gávea. No fim, ele disse que eu mandara bem, que tinha pique e me convidou para correr uma meia maratona. Fiquei com aquilo na cabeça e decidi me aceitar. Ainda não havia corrido nem 10K, mas o meu lado Mulher Maravilha dizia que eu dava conta.

Decidi me aventurar e me inscrevi nos 10K de uma etapa do Circuito Rio Antigo. Quando chegou no km 7 foi horrível. Não consegui mais correr. Sofrendo muito, terminei a prova andando e passei um mês cheia de dor. Fiquei preocupada e achando que eu nunca conseguiria correr 21K. Na verdade achei que eu não ia mais correr.

As dores foram passando e aquela vontade de correr um pouco mais foi voltando. Voltei aos treinos, ainda sozinha e mais devagar. Corria 7, 8K e cheguei aos 12. E assim, treinando sozinha fui para minha primeira meia maratona. A largada foi às 7h, mas eu me atrasei e larguei sozinha, às 7h30, depois de todo mundo lá do Recreio rumo à São Conrado. Fui curtindo, pegando a brisa da praia, um dia sem muito sol. Consegui dar conta com tranquilidade. Não me matei e terminei a prova em 2h25min. Fiquei feliz por terminar inteira e mais uma vez meu lado Mulher Maravilha me disse que eu dava conta de repetir o feito. Mas aí… entrei de novo naquele ritmo! Correndo pouquinho e sem evoluir.

Fiquei tranquila por ter conseguido sem sacrifício e não dei a atenção necessária aos treinos. E assim, me inscrevi em outra meia, em 2016. E qual foi? A Meia Internacional do Rio. Aquela mesma com largada às 9h. E aí foi uma experiência completamente diferente. Foi a pior corrida da minha vida. Sofri muito e terminei a prova em 2h33min passando muito mal. Cheguei em casa com muita dor na perna, na lombar, enjoada, tonta, com dor de cabeça e vomitando.

Fiquei meio traumatizada e já, de novo, achando que eu não dava conta daquilo. Mas as dores vão passando e nós vamos esquecendo todo o sofrimento. Comecei a pensar que só estava mal preparada, que estava muito sol. Que tinha de fazer certo e procurar uma assessoria esportiva para me ajudar. Me dei mais uma chance e decidi fazer mais uma meia. Nos intervalos entre as meias eu ia fazendo provas de 5, 10 e até 15K.

Escolhi a Meia Maratona da Caixa e decidi que seria cuidadosa na preparação. Na procura por uma assessoria, uma amiga me falou da Inthegra. O problema é que era em Copacabana e eu moro no Flamengo. Meus horários nunca foram fáceis, mas eu fiz os ajustes e fui.

Era tudo muito profissional e diferente do que eu estava acostumada. Diferente do que eu imaginava que era correr. Entendi que ir para rua correr o quanto conseguir e voltar para casa não era treino. Aprendi que um treino de corrida envolve muito mais do que isso. Que há vários tipos de treino. Intensidade, intervalado, longão. E os educativos? Nem tinha ideia do que era isso. Havia ainda o fortalecimento muscular. Era um mundo novo! E eu achando que corria!

A prova era em junho e fui para a Inthegra em maio. Nesse pouco tempo consegui evoluir muito e corri a meia bem melhor do que as outras, em 2h10min. Sem dor e sem aquela exaustão. Ainda não dava para terminar sorrindo, mas meu estado físico e emocional era bem diferente. Voltei a ter mais confiança em poder correr uma prova longa sem sofrimento.

Mas um mês depois dessa meia, mas não por causa dela. Procurei um médico por causa de dores nos quadris. Descobri uma hérnia de disco. Ele mandou eu parar de correr, eu disse que não ia e então ele recomendou fortalecimento muscular.

Como não passava pela minha cabeça ter de parar de correr, tive que aprender a conviver com o reforço muscular, algo que eu não gostava de fazer. Até então eu não pensava em maratona, só em meias. Então eu corria, fazia reforço muscular e ainda minhas atividades no tecido acrobático, que gosto muito e faço desde 2014. Fui levando os três até o fim de 2017. Depois da hérnia veio uma crise de coluna com uma dor insuportável. Ali eu entrei numa daquelas fases em que achava que eu não conseguiria mais correr. Mas eu não parei.

Minha evolução foi a passos largos, mas sem planejamento até os 21K. E eu continuei correndo a distância. Depois dessa em 2017 eu corri mais uma no Rio e uma em São Paulo. Mas 2018 foi um ano em que não me dediquei muito à corrida. Estava com horário muito difícil. Mas foi neste ano que eu coloquei na minha cabeça correr uma maratona em 2019. Então escolhi a de São Paulo, por que no calendário de provas ela é uma das primeiras do ano. Dava para eu me dedicar nas férias de janeiro e acabar logo com isso. Escolher uma mais pra frente significava arrastar este sofrimento. E sou uma pessoa muito ansiosa. Além disso, estava com medo da Maratona do Rio por que é muito quente e úmido. Seria mais sofrido.

Mas não tem sido fácil. É bem complicado conciliar tudo o que tenho de cuidar no meu dia-a-dia. Tenho duas filhas, de 10 e 12 anos, com horários diferentes de escola. No trabalho, uma empresa pública, eu não tenho muita flexibilidade de horário. Mas decidi fazer este esforço até abril para dar conta. Até dei uma parada com o tecido acrobático.

Fiz também algumas mudanças na alimentação. Mas o mais difícil não é o corpo. Eu sinto que ele dá conta. Estou sofrendo mesmo é com a ansiedade, que é muito grande. Eu sonho com isso, passo mal com isso. Durante os treinos eu brigo com a minha cabeça. A Mulher Maravilha dentro de mim diz que eu consigo o tempo inteiro, mas diabinho também diz o tempo inteiro que eu não vou conseguir. É um desgaste emocional muito grande e acho que isso ainda não está ok. Em toda corrida ou longão me vem este pensamento na cabeça. E eu quero ficar longe deles, principalmente na hora da prova. Isso pesa muito e eu quero que seja um momento especial. Vou levar a família inteira para São Paulo. Meu namorado, o Ivan, que está me ajudando muito nos treinos, e minhas filhas, por que quero que elas estejam presentes. Quero poder abraçá-las na chegada”.