Diego Costa: a incrível arte de ser ultramaratonista sem perder a ternura

Correr uma maratona já não é uma tarefa fácil. Correr algumas já requer muita disciplina e praticamente fazer da corrida um estilo de vida. Mas e correr ultramaratonas, fazendo disso o seu alvo? É algo quase que sobre-humano. É somente para aqueles que estão realmente dispostos a fazer sacrifícios. Que a família está disposta a fazer sacrifícios também.

O engenheiro de produção e segurança do trabalho Diego Salles da Costa, de 35 anos, completa em outubro 10 anos de corrida.  Pai de duas meninas, Diego celebra uma década correndo fazendo planos para o que talvez seja o seu maior desafio até aqui: a Arrowhead 135, em janeiro de 2019. Uma prova de 217 quilômetros de neve, puxando um trenó em um ambiente com temperatura de -40 graus. E pensar que tudo começou com uma “corridinha” de 6K no Aterro do Flamengo.

Foi na Corrida do Comerciário, em 19 de outubro de 2008. Fui acompanhar minha esposa Gilcelia Borges, que estava iniciando nas corridas. Eu sempre pratiquei esportes, tinha a prática de correr e nunca havia feito uma corrida de rua. Fiz os 6K em 31 minutos. Um dia inesquecível.

Com a esposa Gilcelia

Depois da prova, Diego já começou a matutar sobre as distâncias. Primeiro sobre os cerca de 40 quilômetros que separam sua casa, em Jacarepaguá, do Aterro do Flamengo. Depois sobre as distâncias das provas. E a alma de ultramaratonista já começava a dar sinais de vida.

“Na época eu pensei: ‘moro em Jacarepaguá e acordo cedo pra caramba para ir até o Aterro do Flamengo. Vou correr só meia hora?!’.  Então na segunda prova, em dezembro, fiz os 10K. Em janeiro repeti a distância na São Sebastião.  E em abril de 2009 já fiz minha primeira meia maratona, na Barra. Em junho repeti o feito na Meia Maratona do Rio. Naquele dia eu decidi que faria a Maratona do Rio em 2010. E foi assim, ainda sem treinamento especializado, meus primeiros 42K. Catando treinos na internet, conversando com amigos maratonistas. Foi no sofrimento, mas foi. Em 4h06 min. Desde então não perco uma edição. É a minha maratona do coração.

No ano seguinte, em 2011, já com o treinamento da assessoria esportiva que atendia a equipe de corrida da empresa em que trabalha, Diego começou uma relação de cumplicidade com a corrida e com as longas distâncias. Desde então colocou 13 maratonas em seu currículo, incluindo três internacionais, uma delas em Berlim. Mais que isso, Diego aplicou nas corridas a generosidade, um traço marcante em sua personalidade.

“Decidi que a partir de 2012, no Rio, eu escolheria um amigo que estivesse estreando em maratonas e o acomparia durante toda a prova. Foi assim com Joílton Castro, Reginaldo Duarte, Wagner Ferrele, minha Esposa Gilcelia e Rodrigo Belsito. Fico mais feliz quando nasce um novo maratonista do que com meu próprio desempenho na distância”, diz o corredor.

Nesta época, as ultramaratonas já faziam parte do imaginário de Diego. Elas foram apresentadas a ele em 2009 durante seus treinos no Recreio pelo lendário Márcio Villar, com quem passou a treinar eventualmente e de quem virou grande amigo. Na verdade, um irmão! Foram muitas conversas e muitos treinos até a primeira ultra, em 2012. Algo simples, se comparado aos desafios de hoje, mas que teve o seu valor.

Descobri as ultramaratonas com o Márcio, porém considerava algo impossível naquela época. Encontrei e treinei com ele várias vezes, até que em 2012 fiz a Super Maratona de Friburgo, com 50Km. Ali começou o meu dilema ‘velocidade x resistência’. Em seguida fiz ‘Bertioga Maresias Survivor’, de 75km. Uma prova linda e que confirmou o meu gosto por ultras.

Se a prova no litoral paulista confirmou o gosto por ultras, foi a viagem para a Maratona de Berlim que revelou na personalidade de Diego a pitada de loucura e de irresponsabilidade típica dos ultramaratonistas. O corredor vinha treinando forte para correr a prova abaixo de três horas. Um planejamento que previa um bom tempo de descanso depois da prova.

“Estava alinhado com meu treinador. A meta era ser sub 3h em Berlim. A preparação estava focada nisso, até eu descobrir que seis dias depois desta maratona haveria uma prova cortando Alemanha, Áustria e Suíça, contornando o Lago Bodensee. Fiquei animado de fazer as duas, afinal já estaria lá na Alemanha. Fui conversar com meu treinador, que desaprovou a ideia de imediato. O foco era Berlim! Para ele…”, brinca Diego, com um sorriso maroto.

A resposta do treinador não convenceu Diego, que pegou o telefone e ligou para o amigo e conselheiro Márcio Villar.

Contei sobre as duas provas, ele ouviu e soltou a pergunta que até hoje não esqueço: ‘você vai ficar mais feliz fazendo uma maratona abaixo de 3h ou fazendo duas maratonas seguidas?’ Não titubeei e respondi de imediato que seria duas maratonas ou mais. Então ele disse: ‘faz a inscrição nas duas provas por que você é ultra’. Não esqueço deste momento. Dali em diante, comecei a pensar em distâncias maiores.

E assim Diego Salles Costa começou a construir o seu currículo de ultramaratonista e uma relação de irmão com Márcio Villar. Na primeira Ultra 12h, os dois correram juntos. Na primeira Ultra 24h, Márcio foi apoio de Diego. Até hoje, os dois privilegiam a chance de estarem juntos nas ultramaratonas, correndo lado a lado ou apoiando um ao outro. Uma parceria que sempre termina em pódio.

“Com ele no apoio fui campeão geral em Paragominas-PA/2014, vice-campeão geral nas 12 horas da Mantiqueira/2016, vice-campeão geral nas 24h/2017, 9o lugar geral na UAI 235km/2016, 6o lugar geral no Desafio 300km na Estrada Real/2017 e 9o lugar na BR135 /2018. Amigos e irmãos ultras também me apoiaram nessas jornadas. Nilton Amaral, Carlos Zuma, Alexandre Dias e Gilson Gama são uns dos amuletos que tive nestas conquistas”, revela Diego.

Em Berlim, Diego já passara por um dos uma maiores apertos de seus 10 anos de corrida. Algo que lhe serve de lição até hoje, especialmente quando larga numa ultra, em que se deve encontrar o equilíbrio perfeito entre velocidade e resistência.

Como faria outra prova longa uma semana depois, eu tinha que segurar a onda em Berlim. Mas saí forte e passei no km32 com 2h30min. Eu suava muito e decidi tirar o corta vento. Quase fui obrigado a abandonar uma prova pela primeira vez. Logo em Berlim! Com seis graus de temperatura, tive um choque térmico e fui parar na ambulância, todo travado. Queriam me tirar da prova, mas não aceitei. Voltei todo travado, fui parando nos hotspots para colocar o spray que esquentava até os cabelos que não tinha mais. Completei a prova em 3h36min e aprendi ali a importância de preencher o verso do número de peito, algo que nunca tinha feito antes! Se eu morresse, como iriam avisar minha esposa que esperava na chegada? Desde então preencho todos, principalmente nas ultras. 

Treinos e provas ocupam um bom tempo da vida de Diego, mas engana-se quem pensa que ele não tem tempo para outras coisas ou negligencia momentos em família e questões de trabalho. Diego faz questão de dizer que apesar de apaixonado pelas ultramaratonas, faz com que sua rotina de treinos se encaixe em todo o resto e não o contrário.

“Minha rotina de treinos se encaixa na rotina de vida da família. Corro quatro vezes por semana, sendo longo um destes treinos. Isso dá em média 350 a 450 quilômetros por mês. Minha meta é rodar pelo menos 320 Km. Tenho conseguido atingir a meta e conciliar tudo com a família, o trabalho e outras coisas. Adoro viajar e amo música. Aliás, toco em baterias de escolas de samba e tenho uma banda de pop rock”, conta o corredor.

Apesar do sofrimento em algumas provas – na verdade em quase todas elas – Diego acredita que ele beneficie todo o resto. Funcionam como uma terapia. Treinar, por vezes, é sacrificante, mas que tem seus benefícios. O corredor conta que não é raro perceber que está sorrindo sozinho no meio de uma prova dura. Isso se reflete no dia-a-dia.

“Como comecei a correr influenciado por minha esposa, ela nunca se opôs às minhas aventuras. Ela não aprova algumas, mas no fundo, acredito que ela me entenda. Não corro pra vencer ou para provar algo. Corro porque é minha terapia! Esqueço todos os problemas quando estou correndo. Às vezes me pego no meio de uma ultramaratona sorrindo sozinho! A Ana, esposa do Márcio Villar, costuma dizer que eu posso estar todo ferrado, mas estou sempre com sorriso no rosto! Corro por isso! Amo essa sensação de vitória pessoal!”

Com os “irmãos” Nilton Amaral, Márcio Villar e Carlos Zuma

Ter uma certa fama de maluco é algo comum para os ultramaratonistas. E Diego não é daqueles que saem por aí falando e se gabando dos seus feitos. Prefere falar da corrida como algo que melhora a qualidade de vida, atrai amigos e proporciona boas viagens. Mas a parte que Diego mais gosta é quando sua história tira as pessoas do sedentarismo. Aí entra mais uma vez aquela tal generosidade.

“Tenho amigos que chegam dizendo coisas assim: ‘tem um cara lá no trabalho que veio tirar onda que correu 10km e eu disse que tenho um amigo que corre 300km. Ele não acreditou e eu entrei no seu facebook para mostrar suas provas’. Aí, eu digo que esse cara que corre 10 daqui a pouco está correndo 300 também. O importante é começar. Para incentivar os amigos sedentários, em todas as provas que faço a inscrição pela empresa, peço camisas de tamanho maior que o meu para doar e incentivar alguém a correr. Já consegui trazer alguns para o mundo das corridas. Isso é o mais importante.

Correr ultradistâncias é para Diego uma realização. Mas ele tem um sonho do tamanho da sua generosidade: completar as provas que formam a Copa do Mundo de Ultramaratonas em condições adversas. A BR 135 -Serra da Mantiqueira – ele já fez. Agora aguarda a aceitação de seu currículo para a Arrowhead 135 – Minesota/EUA -, em janeiro de 2019. Por fim espera estar na Badwater 135 – Deserto do Vale da Morte/EUA), em 2020.

“Depois vamos sonhar com algo novo para transformar em realidade. É impossível viver sem a corrida! É minha terapia! É o que me dá força e foco! Fico triste quando não consigo treinar. Graças a Deus e ao reforço muscular, tem mais de ano que não me lesiono!”.